Para Odir Nunes, a política é um dom

No 6º mandato para Câmara de Vereadores de Joinville, Nunes ainda sustenta o ideal de emancipação do distrito de Pirabeiraba

Camila Prochnow – prochnow.camila@gmail.com

“Sempre tive vocação para a política. Deus dá um dom a cada um de nós. Meu dom é para a política”. A pergunta tinha sido feita para entender o motivo da escolha pela política, mas já serviu de brecha para perguntar qual a relação do vereador com a religião. Ele diz ser católico. Praticante? ― pergunto. “Sim, praticante!”, responde com todo o orgulho de quem fez três anos de teologia pelo Centro Diocesano de Joinville e que agora faz um curso baseado num estudo mais aprofundado da Bíblia. Atrás de sua cadeira, numa espécie de bancada, está a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

“Tem que fazer o que gosta, eu não vivo da política”, é o que diz o vereador ao contar que não é a atividade de vereador que lhe sustenta. Odir Nunes é formado em Administração de Empresas e Geografia pela Univille. Foi professor de cursos como Filosofia, História e Economia. Tem quatro filhos, três biológicos e um adotivo de nove anos. Todos os três, com idades próximas, 19,22 e 27 anos, não se ocupam de nada que envolva a política.

Odir Nunes é casado há 26 anos. Nascido em Vidal Ramos, sul de Santa Catarina, veio para Joinville aos 17 anos para estudar. Filho de agricultores da plantação de fumo, perdeu o pai aos oito anos. Numa família de 11 filhos, todos homens, Odir é o caçula. Na sua mesa, os livros “Santa Catarina no Senado” e “Ética e Cidadania” compõem o cenário sóbrio e sem grandes sofisticações.

No rol de ações fundamentais para o 6° mandato que iniciará em 2009, Odir aponta a ampla discussão do Plano Diretor como uma das principais ações. Esta discussão ocorrerá com base em um debate das leis complementares. Segundo ele, estas leis devem considerar o crescimento de Joinville. E para que ocorra de forma sustentável é necessário a criação de um cinturão verde que abraçaria bairros como Pirabeiraba e Vila Nova.

Além disso, o vereador confirma a necessidade que a cidade cresça para a zona sul. “Só temos um distrito industrial na zona norte”, lembra, afirmando que Joinville precisa de um parque industrial também na zona sul. “Os trabalhadores precisam estar mais próximos do seu local de trabalho”, lamenta.

O vereador reside em Pirabeiraba, na região do Rio Bonito. Segundo ele, foram 12 os candidatos do bairro que tentaram eleger-se neste ano. Ele afirma que sozinho angariou 41% dos votos destinados a esses candidatos, totalizando 3014 votos. O vereador, que tem sua base eleitoral em Pirabeiraba, é defensor da emancipação do distrito. Ele conta que em 1990 criou-se uma comissão de emancipação de Pirabeiraba, mas que por alguns problemas legislativos não foi possível dar continuidade ao projeto. “Seria ótimo, pois o poder estaria mais perto das pessoas”, relata.

Odir Nunes também é radialista. Na rádio Pirabeiraba, ele atua como diretor de programação e apresentador de um programa matinal. O Balcão de Utilidades vai ao ar das 8h ao meio dia na sintonia 87,9 FM. A rádio que Odir caracteriza como comunitária por sua forte atuação social tem 93% da audiência dos moradores da região. Porém, ele acha que essa visibilidade não influencia os eleitores. “Tudo depende do programa”, argumenta o vereador alegando que a rádio o ajuda a ser conhecido na comunidade, mas não chega a decidir o voto das pessoas.

A programação musical mesclada com utilidade pública, em que a comunidade anuncia coisas que queira comprar, vender, alugar, doar, é o foco do seu programa. É esta a comunidade que Odir afirma ser muito ajudada pela rádio, uma vez que o meio de comunicação – e interação – promove eventos, festas e ainda informa a população sobre o bairro. “As pessoas estão preocupadas com o que está acontecendo a sua volta”, conta o vereador.

Ele espera que termine minhas anotações. Sempre precedida de um “sabe” direcionado a mim, sua fala é enfática: “Vou visitar todas as casas de Pirabeiraba para agradecer os votos que recebi”, conta. Odir se elegeu com 4664 votos e em Pirabeiraba foram 4264 casas visitadas. “Este número compreende 99% das casas do bairro. A idéia é visitar 100% para agradecer os votos”, explica.

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Quinzinho prefere o Executivo

Joaquim Alves dos Santos, 48 anos, vereador recém-reeleito em Joinville, está muito mais acostumado a dirigir a Secretaria Regional do Jardim Paraíso do que às burocráticas tarefas da Câmara de Vereadores. Quinzinho, como a maioria dos conhecidos o chamam, foi eleito em 2008 para o terceiro mandato, com 3834 votos, representando o PSDB.

Felipe Silveira – felipopovfelps@gmail.com

Eleito pela primeira vez em 2000, ele deixou a Câmara para assumir a Secretaria Regional do Jardim Paraíso no ano seguinte. Em 2004, se licenciou do cargo administrativo para concorrer à reeleição e ganhou. Pouco depois, estava novamente à Secretaria, voltando ao Legislativo em 2008 para concorrer novamente.

“Eu acordo às cinco e meia para pegar às seis horas na Secretaria”, orgulha-se – ressaltando que o horário padrão é às 8 horas. “Faço isso para atender ao pessoal que trabalha em horário normal e não pode esperar”. Quinzinho sente-se à vontade no Executivo: “Aqui você pode fazer, não tem que pedir para ninguém. A única coisa que manda é o orçamento. Se tiver dinheiro, você pode fazer”.

E a Secretaria pode fazer o vereador perder o mandato. Acusado de comprar votos com materiais (saibro) da Secretaria Regional, Quinzinho alega que isso foi um boato espalhado pelo adversário para destruir sua carreira. “Não tem nenhum processo contra mim, não abriram inquérito. Tentaram me derrubar”, declara. Ou ele não sabe do inquérito ou está mentindo. A denúncia foi feita ao Cartório Eleitoral de Joinville, que pediu informações à Polícia Federal. O inquérito está em andamento. Se a denúncia for comprovada, Quinzinho será julgado pela Justiça Eleitoral e poderá perder o mandato.

Quinzinho nasceu em 1960 na pequena cidade de Ataléia (MG) e aos sete anos se mudou para a também pequena Iratama (PR), onde ficou até os 18 anos. Chegou a Joinville no dia 11 de novembro de 1978, ano em que a “Manchester Catarinense” crescia tanto que era obrigada a importar trabalhadores de outros estados, principalmente do Paraná.

Trabalhou na Fundição Tupy e foi morar numa região próxima à fábrica, onde formava-se uma comunidade, composta, majoritariamente, por famílias oriundas do Paraná, e por isso chamada Vila Paranaense. “Eu fui um dos primeiros moradores da vila, o quinto, eu acho”, conta Quinzinho, que ainda mora lá.

Hoje, a Vila Paranaense tornou-se o bairro Comasa, que forma, junto com o Jardim Paraíso, a base eleitoral de Quinzinho. “Comecei a minha vida política com o trabalho comunitário na região. Sempre trabalhei no setor privado, mas fazíamos um trabalho para desenvolver a região, que era abandonada”, conta.

Após sete anos trabalhando na Tupy, cinco na Wetzel e dez no setor de material de construção, Quinzinho concorreu pela primeira vez ao cargo eletivo em 1996, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). “Infelizmente”, murmura, como se fizesse um pequeno sacrifício para revelar esse fato do passado. Tendo feito 1022 votos na primeira eleição, Quinzinho reclama não ter sido reconhecido no PT, no qual se filiou em 1995 e saiu em 1997, aderindo ao Partido da Social Democracia Brasileiro (PSDB).

“É um partido em que você tem voz, pode opinar e construir juntos”, explica. Após trabalhar por três anos como fiscal da Secretaria de Habitação, se elegeu em 2000 se elegeu pela primeira vez com 2371 votos. Assumiu a Secretaria Regional do Jardim Paraíso em 2001 e lá dobrou o eleitorado para o pleito de 2004, conquistando 4086 votos e a décima colocação entre os vereadores mais votados.

O petista que desafia Carlito

Vereador reeleito, Adilson Mariano não pretende mudar suas estratégias no Legislativo

Ana Carolina Luz – anacarolinadl@gmail.com

De calça jeans, sapatos esportivos escuros combinando com a camiseta preta, celular à mão, Adilson Mariano chega à sua sala exatamente às 15h55, cinco minutos antes do horário combinado. À vontade, inicia a conversa falando de sua satisfação por ter sido reeleito vereador com 5.574 votos, número que o deixou na segunda colocação dos mais votados. “É, parece que tenho feito um bom trabalho”, satisfaz-se.

Filho de José Ernesto e Rosalina Beumer Mariano, Adilson nasceu em 1974. Aos 14 anos começou a trabalhar na Metalúrgica Duque, empresa na qual permaneceu por 13 anos. Cursou história na Univille no período de 1993 a 2000. “Demorei mais do que o normal porque precisei trancar alguns semestres devido ao trabalho político”, justifica.

Aos 18 anos, Mariano concorreu à primeira eleição para vereador de Joinville. Na ocasião, conseguiu 490 votos. Tentou novamente em 1996. “E consegui 587 votos a mais que a eleição anterior”, comemora, mesmo não tendo sido eleito. Com a segunda derrota no Legislativo, Mariano partiu para o trabalho de assessoria do então deputado estadual Assis, do PT, ainda em 1996, com quem ficou até 2000.

Mariano vê a política como um instrumento por meio do qual as pessoas possam perceber a sociedade. “Ninguém muda o mundo sozinho”, reflete. Ele acrescenta que o cerne do problema da sociedade é o capitalismo. “O povo precisa ir a luta contra esse sistema”, acredita.

O petista faz parte da organização da Esquerda Marxista, corrente mais radical do PT, que diverge em alguns pontos da linha seguida pelo prefeito eleito no último dia 26 de outubro, Carlito Merss, e pelo também vereador Marquinhos Fernandes — os três são os principais nomes do partido em Joinville. Mariano explica que Carlito e Marquinhos são reformistas, enquanto ele — e a esquerda marxista — acredita que o atual sistema está fadado ao fracasso.

Na opinião de Carlito, o PT está sim dividido em algumas correntes, mas apenas internamente. “O Mariano é um vereador que tem clareza e importância significativa para o partido”, diz. Por isso, crê que os dois certamente se auxiliarão mutuamente nos quatro anos de mandato. No entanto, Mariano faz questão de deixar claro que, mesmo sendo do mesmo partido e defendendo os mesmos ideais, poderá haver divergência se o prefeito e sua equipe desviarem dos objetivos por ele defendidos: “Aí, seremos oposição”.

Vereador 24 horas por dia, de acordo com suas palavras, Mariano é casado há dez anos, mas ainda não tem filhos. “Estamos tentando, mas naturalmente ainda não deu”, lamenta, cogitando a hipótese de adoção. Professor de história para a segunda e a terceira série do ensino médio em uma escola pública do Parque Joinville, Mariano lembra bem humorado que, quando o contrataram para o cargo, muitos pais ficaram receosos, pois o achavam brigão. “Felizmente desfizeram essa imagem de mim”, comemora. “Só sou radical para ver os problemas resolvidos”.

Longe da Câmara de Vereadores, Mariano dedica o tempo livre para assistir a filmes de época, de ficção e policiais. “Não alugo filmes de política, sou normal”, brinca. Costuma ir às compras aos sábados ou domingos pela manhã. E só em mercados de bairro. “Shopping? Nem pensar”, ressalta.

No dia-a-dia, lê apenas para preparar suas aulas, além de dar uma passadinha nos jornais. “Aprendo muito no debate”, percebe. Mas a falta de leitura o faz pensar que lhe falta teoria. “Por isso, aproveito o período de férias para ler um ou dois livros, para tentar tirar o atraso”, comenta bem humorado.

Freqüentador assíduo da igreja católica, Mariano apega-se aos primeiros cristãos para exercer sua função pública. “Sempre lembro do que a bíblia diz sobre as pessoas dividirem seus bens com alegria”, conta, ligando a frase aos princípios socialistas. Todos os domingos, das 18h às 20h, Mariano participa com a esposa do grupo de reflexão de sua paróquia. “Jesus Cristo é admirável, é um referencial”. Além disso, também toca violão em um grupo que anima as celebrações. “É meu espaço para recarregar as energias”, admite.