Machado de Assis não gostava de ciência

Para alguns intelectuais da época, Machado de Assis era um homem sem conhecimento científico e com pouca paixão política


Tiago Santostiagonsan@gmail.com

Capa do livro "O Alienista", no qual Machado versa sobre a loucura e a sociedade

Capa do livro "O Alienista", de Machado

“Machado de Assis, o genial escritor brasileiro, desconfiou muito dos entusiasmos com que os seus contemporâneos incensaram a ciência”. Esta é a resposta de botagirl para a pergunta “O que significava a ciência para Machado de Assis?”, feita pela Nanda, na ferramenta Yahoo! Respostas.

Machado de Assis era um severo crítico da ciência. Essa posição é pouco comentada na bibliografia sobre o autor, porém está presente em grande parte de sua obra. Seu ceticismo vem do envolvimento do escritor com a Nova Geração, grupo de intelectuais que surgiu no fim do século XIX. Segundo Richard Miskolci, doutor em sociologia pela USP, Machado compartilhou as idéias marginais do grupo, principalmente no posicionamento contra-Império. Mas ao contrário dos outros, nunca aderiu à política intensamente.

Miskolci cita em um de seus artigos que Sílvio Romero, intelectual contemporâneo de Machado, mas que ao contrário dele, perseguiu os ideais positivistas da época, afirmava que Machado de Assis “não tinha conhecimento científico nem paixão política, atributos que ele considerava essenciais no verdadeiro intelectual, ou mais claramente, no homem de ciência que via em Tobias Barreto, em si mesmo e nos outros companheiros da geração de 1870”. Ele estava mais envolvido com a dimensão estética de suas obras do que qualquer assunto que surgisse de um meio extraliterário. (leia artigo de Richard Miskolci aqui)

Para o professor português Nuno Crato, os positivistas brasileiros, que idealizaram a projeção da República no Brasil, estavam dispostos a moldar a sociedade brasileira segundo o conhecimento dito científico, como proferia a filosofia positivista de Auguste Comte. Machado foi feliz em se posicionar contra este ponto de vista, que na época era atitude revolucionária. O autor percebia que ao submeter todos os fenômenos sociais ao racionalismo extremo, que muitas vezes se mostra pretensiosamente equivocado, ampliam-se as diferenças entre as classes em nome de um progresso cego.

Não tardou para que Machado de Assis desferisse críticas à produção desta nova geração de intelectuais brasileiros de 1870. Segundo ele, ciência e poesia nunca poderiam ser feitas com as mesmas palavras. A ironia de Machado em relação à ciência está presente principalmente em O Alienista, onde relata o trabalho de um médico para sanar todos os habitantes da loucura. Machado desmistificava a pretensão da ciência em explicar a realidade em sua completude, tão em voga na época.

Com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado consegue ironizar a disposição da ciência em dar explicação para todos os males da humanidade. O plaustro Brás Cubas, criado pelo personagem principal do romance, seria um remédio para a melancolia e mal-estar dos homens. Mas a idéia não sairia do escopo, pois seu criador morreria justamente por idealizá-la demais. A obra funciona também como um excelente observatório social da época.

Para Moacyr Scliar, médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Machado foi um intérprete agudo e sensível da realidade brasileira, funcionando como um sismógrafo do Brasil na virada do século 19 para o 20. A maior contribuição de Machado à Ciência talvez tenha sido os estudos e observações acerca da sociedade brasileira no fim do Império, e que perduram pertinentes até os dias de hoje, por sinal.

Clube de Cinema assiste Machado

Clube de Cinema do Ielusc, de Joinville, promove debate sobre o filme Memórias Póstumas, de André Klotzel.

Felipe Silveirafelipopovfelps@gmail.com

Para comemorar o aniversário do Clube de Cinema, o curso de Comunicação Social do Bom Jesus/Ielusc parou, no dia 22 de setembro, para assistir ao longa-metragem brasileiro “Memórias Póstumas”, de André Klotzel, adaptado da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das mais importantes do maior escritor brasileiro – Machado de Assis.

O diretor tinha um grande desafio pela frente: adaptar para o cinema a obra que assinalou a transição do romantismo para o realismo em Machado. Para isso, Klotzel apostou numa linguagem ousada. Colocou a personagem Brás Cubas para falar diretamente com o espectador, assim como o texto de Machado, que fala diretamente ao leitor.

“Apesar de arriscada, a opção se mostrou das mais felizes, porque é exatamente assim que Cubas fala com o leitor do livro original: direta e francamente”, afirma o crítico de cinema Celso Sabadin.

Brás Cubas, interpretado por Reginaldo Faria, volta dos mortos para contar a história de sua vida, suas ambições e seus amores. Sônia Braga, Marcos Caruso e Otávio Muller tiveram ótimas atuações como Dona Marcela, Quincas Borba e Lôbo Neves, respectivamente.

Após a exibição do filme, a professora convidada para o debate, Deise Freitas, sentiu falta de trechos importantes do livro no filme, como a parte do escravo que Brás Cubas maltrata quando pequeno e reencontra já adulto. Deise é pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e participa do projeto Nupill, que catalogou mais de 200 obras do escritor brasileiro e as publicou na internet.

Outra crítica, do professor Silnei Soares, integrante do Clube, aponta para o fato de que a linguagem utilizada no longa é popular como uma novela, destoando do rebuscado texto original. “É uma tentativa de aproximação com o público, e isso é bom, mas ao mesmo tempo, certas sutilezas se perderam”.

André Klotzel (54) assina o roteiro e a direção. O diretor de cinema paulista é formado em Cinema pela Universidade de São Paulo (USP) e estreou seu primeiro longa – A marvada carne – em 1985.  A obra primogênita recebeu 11 prêmios no Festival de Gramado e participou do Festival de Cannes. Memórias Póstumas, o filme mais conhecido, recebeu cinco Kikitos no festival brasileiro.

Alunos estudam literatura e biografia de Machado de Assis

Centenário de morte do poeta incentivou a leitura das obras machadianas em salas de aula de Jaraguá do Sul

Daiana Constantinodaiana_constantino@hotmail.com

Michel Formighieri conheceu Machado nas aulas de literatura

Michel Formighieri conheceu Machado nas aulas de literatura

Em Jaraguá do Sul, das 18 escolas estaduais apenas a Professor João Romário Moreira realizará evento em comemoração ao centenário de morte de Machado de Assis. E das 34 instituições municipais somente a Escola de Ensino Fundamental Machado de Assis fez atividades alusivas aos cem anos de morte do poeta no dia 29. A data serviu de incentivo a leitura das obras machadianas e os professores aproveitaram para ensinar sobre o escritor em sala de aula.

O pátio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Machado de Assis lotou para a apresentação da peça “Conto de Sala de Aula de Machado de Assis”. Os alunos desfilaram caracterizados e depois declamaram poesias do escritor. Para a diretora Gisela Relindes Frankowiak, os eventos possibilitaram aos estudantes conhecer a biografia do romancista e suas obras literárias.

Os professores da Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Professor João Romário Moreira preparam atividades para o dia 15 de outubro. Segundo a diretora, Liane Lia Reinke Pinheiro, duas apresentações teatrais estão marcadas, a partir das 19h, na Sociedade Aliança, localizada no bairro Rio Cerro II.

Escola inspira alunos com mensagens de Machado de Assis

Escola inspira alunos com mensagens de Machado de Assis

Mesmo sem atividades extra-classe, os alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Abdon Batista não ficam atrás. A estudante Joana Caroline Martins, 15 anos, conta que leu Dom Casmurro. “Essa é uma obra depressiva, que fala de morte”, afirma Joana. A aluna gosta do jeito que Machado narra os fatos e os descreve. “Ele é realista e se comunica com o leitor”, aprovou a aluna.

No Instituto Educacional Jangada, o poeta é estudado durante as aulas de literatura. O aluno Michel Formighieri, 18 anos, conhece algumas obras. “No geral as produções de Machado de Assis são românticas, dramáticas, têm heróis problemáticos e a maioria é narrada em primeira pessoa. A história é focada em amores figurados, como acontece em Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas”, explica Formighieri.

Colégio de Joinville possui obra completa do escritor Machado de Assis

Além de ter acesso ao acervo, alunos participam de eventos temáticos

Guilherme Cardosoguilherme.srds@hotmail.com

 Em Joinville, o Colégio Machado de Assis (Cema) é um dos centro educacionais que preservam a memória de Machado de Assis. Sandra Helena Calegari, diretora pedagógica do Cema, conta que o colégio possui a obra completa  do autor tanto em livros como em CD’s,  “é praticamente uma obrigação nossa até pela história da escola”.Poucas escolas no país possuem a obra completa do lendário romancista.

O investimento na aquisição da obra completa de Machado de Assis partiu da importância do escritor na literatura brasileira e do próprio nome que a escola carrega. Para incentivar a leitura, os educadores sempre sugerem aos alunos leituras prévias dos livros ou de trechos e capítulos de títulos machadianos que são trabalhados em sala de aula, seja em trabalhos ou provas escolares.

O Cema ganhou um aliado para divulgação do acervo de Machado de Assis. O Ministério da Educação lançou há duas semanas a obra completa do autor em formato digital. São 246 arquivos que contém livros como Dom casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Esaú e Jacó e outros. A digitalização das obras é resultado de uma parceria entre o portal domínio público, do MEC, e o Núcleo de Pesquisas e Informática, Literatura e Lingüística (Nuppill), da Universidade Federal de Santa Catarina. A iniciativa fez parte da abertura da exposição sobre o autor na biblioteca nacional.

O colégio Machado de Assis promove eventos com temáticas relacionadas à vida e obra do autor. Segundo a diretora, são gincanas, aulões, olímpiadas que têm como objetivo valorizar o trabalho machadiano.

A morena

Obras de Machado permanecem atuais

Rafael Costarc7comunicacao@gmail.com

Escrever uma crônica sobre Machado de Assis parece ser tão encantador quanto apaixonar-se por aquela morena linda de cabelos lisos e olhar tímido na fila do supermercado, com o carrinho cheio de produtos naturais, vestida com uma calça jeans desbotada e uma blusa comum. Nada parece ser o que é quando pensamos no Bruxo. “Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia”, talvez por isso Várias Histórias podem ser tiradas de suas sustentáveis interpretações.

O que você ouviria aproximando-se daquela morena e dizendo a ela: Tu, Só Tu, Puro Amor. Nada? Um sorriso? Um tapa? Qualquer coisa. “Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse contemporâneo de seus amores, não lhe dando feições épicas, e, por sim dizer, póstumas. Isto me remete a falsas intenções eróticas, a coisas e causos comuns do cotidiano moderno racional e tão pouco deslumbrante. “Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta, mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa”. Até parece Rubião em Quincas Borba. Mas é. Não se surpreenda.

Tudo isso parece ser muito confuso, então entenda. “Acabara o suplício e acabará o homem”. Entenda o porque e acabam-se os poréns. Não tenha medo, encoste na morena e pergunte a ela sobre aquele pão de cor estranha do qual você nunca irá comer e comece uma boa conversa. Você consegue, pois em Memorial de Aires, Machado de Assis explica porque não fazer. “Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei”. Comum e plástico, é a sabedoria abraçando o desprezo, o sabor da língua da morena em sua boca antes do seu fim.

Quem sabe a morena lhe passa o endereço do pecado. Pode ser logo ali. Antes da casa de “Iaiá Garcia”, próximo a algumas Histórias sem datas, longe da sua imaginação. Se quiser eu te conto o nome da morena. Helena. Entregue Falenas para ela. Suplique sua vontade diante de tanta beleza. Esqueça aquela dona de casa preconceituosa na fila ao lado com seu netinho chorão e fale sem desprezo:

“Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.”

Se não der ser certo, depois conte a seus amigos Esaú e Jacó. Mas se der certo, Dom Casmurro morrerá de inveja. Sinta a verdade aflorar suas idéias, sinta o brisa de sua respiração pedir para que lhe beije. A esta altura a morena já estará quase a se derreter em seus braços. Agora, se terminar o convite para sair com Crisálidas. Sorria. Pois ela estará sorrindo. Então a convide de vez e ofereça sua cama naquela Casa Velha, cheia de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Desfrutando da vida de Potira como O Alienista, usando a Mão e a Luva, durante toda a Semana.

Gastronomia presente nas obras de Machado

Trechos das obras de Machado detalham pratos típicos brasileiros e europeus. Confira algumas receitas abaixo.

Parítica Debortolipaty.debortoli22@gmail.com 

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, refeições são descritas com certo esmero, temperando a obra com sabores da culinária Brasileira e Européia.

No Brasil…

Capítulo 11- O menino é o pai do homem
…”Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis anos”…

Doce de coco
Ingredientes:
1 coco ralado
1/2 kg de açúcar
1 colherinha de manteiga
Água
Preparo:
1.Tire a água do coco e reserve-a, quebre-o e rale sem descascar a pele.
2.Numa panela coloque 1 xícara (chá) de açúcar e deixe queimar.
3.Quando estiver bem escuro, junte a água do coco e depois o coco ralado.
4.Quando a calda engrossar, tire do fogo e junte a manteiga.

Capítulo 115- O Almoço
…“Que requinte de temperos! que ternura de carnes! que rebuscado de formas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia; sei que foi cara. Ai dor! Era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Eles lá iam, mar em fora, no espaço e no tempo, e eu ficava-me ali numa ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos anos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, porque ela poderia tornar e tornou, mas o eflúvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde?”…

Receita de Abará
Bolinho de origem afro-brasileira .
No candomblé, é comida-de-santo, oferecida a Iansã, Obá e Ibeji.

Ingredientes:
500 g de feijão fradinho
6 folhas médias de bananeira cortadas em pedaços de 10 x 20 cm
2 cebolas grandes cortadas em pedaços
250 g de camarão seco defumado, sem casca
1 colher de chá de gengibre ralado
1/4 de xícara de azeite de dendê

Para o molho:

1 xícara de camarão seco defumado, sem cabeça e sem rabo
1 cebola grande picada
3 colheres de sopa de azeite de dendê

Modo de preparo:
1.Passe o feijão-fradinho pelo processador ou pelo liquidificador até ficar bem quebrado.
2.Coloque de molho na água de um dia para o outro.
3.Retire as cascas que subirem à superfície.
4.Passe em água corrente e escorra.
5.Reserve.
6.Cozinhe a folha de bananeira no vapor por 4 minutos ou até começar a murchar.
7.Bata o feijão, a cebola, o camarão e o gengibre no processador, até ficar uma massa homogênea.
8.Junte o azeite-de-dendê e misture bem.
9.Enxugue bem as folhas e em cada uma coloque uma colher da mistura preparada.
10.Numa das pontas, sobreponha um lado da folha sobre o outro.
11.Dobre as laterais para o centro, como uma flecha.
12.Dobre para baixo.
13.Repita a operação com a outra extremidade.
14.Cozinha os abarás no vapor por 30 minutos ou até aumentar de tamanho.

Recheio:

1.Passe o camarão no processador.
2.Frite a cebola no azeite-de-dendê até murchar.
3.Junte o camarão e refogue por 10 minutos, em fogo baixo.
4.Se secar, junte um pouco de água.
5.Sirva o abará quente ou frio na própria folha de bananeira.
6.Cada pessoa corta o abará ao meio e coloca um pouco do recheio.

Na Europa…

Parte da História de Brás Cubas se passa em Lisboa. Um prato típico da culinária portuguesa o bacalhau ganhou o nome  de “Brás”.

Bacalhau ao Brás

Ingredientes:

500 g de bacalhau 5 batatas médias raladas 6 colheres (sopa) de azeite 2 dentes de alho amassados
2 cebolas grandes em rodelas finas
6 ovos
2 colheres (sopa) de salsinha picada
Sal e pimenta a gosto
Óleo para fritura
Azeitonas pretas

Modo de preparo:

Lave o bacalhau, coloque em uma tigela e cubra com água fria. Tampe a tigela e deixe na geladeira por 36 horas, trocando a água de vez em quando para eliminar o sal. Em seguida, escorra a água, retire a pele e as espinhas. Desfie a carne com as mãos e reserve. Coloque bastante óleo em uma panela e, assim que estiver bem quente, frite as batatas aos poucos até ficarem douradas. Retire com uma escumadeira e coloque sobre papel absorvente para retirar o excesso de óleo. Em outra panela, aqueça o azeite e refogue, em fogo baixo, o alho e a cebola, até a cebola dourar. Acrescente o bacalhau desfiado e cozinhe por 10 minutos, mexendo sempre. Retire e reserve. Coloque em uma tigela os ovos, o sal e a pimenta. Bata por 3 minutos, ou até começar a espumar. Despeje sobre o bacalhau e volte ao fogo. Deixe cozinhar, mexendo com um garfo, até os ovos ficarem cremosos. Misture as batatas fritas e a salsinha. Coloque em uma travessa, distribua as azeitonas pretas e sirva.