Um convite:Machado de Assis

EDITORIAL

Uma edição para lembrar o centenário de morte de Machado de Assis. Escritor clássico, adepto de vários gêneros, Machado foi personagem da sua própria história e conseguiu construir um estilo de linguagem peculiar.

Poeta, dramaturgo, cronista, crítico, ensaísta, jornalista e até burocrata, o autor sabia como ninguém delinear o perfil psicológico de um personagem e, não somente, dar-lhe vida por ações. Considerado autodidata, aos 16 anos publicou seu primeiro trabalho literário, o poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense. Com o interesse precoce pela vida intelectual e a paixão latente pela literatura o menino do Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, transformou-se em fascinante escritor, cujas obras despertam curiosidade e a leitura permite uma analogia com a atual conjuntura brasileira.

Nós que também somos atores dessa teia social do século XXI, publicamos algumas das facetas de Machado e um recorte dos canais de acesso ao seu legado, principalmente na web.

Uma edição temática, um convite para ler, conhecer e lançar novos olhares – ainda mais contemporâneos – sobre a obra machadiana.

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Machado também foi apelidado como “Bruxo do Cosme Velho”

 Apelidos e peculiaridades de seus personagens marcaram a vida e a obra de Machado de Assis

Charles Françaxarlys@hotmail.com 

 

    Não bastassem os inconstáveis elogios recebidos por críticos do mundo inteiro, Machado de Assis é conhecido por um estranho apelido que, ainda assim, não lhe rouba prestígio. O epíteto “Bruxo do Cosme Velho” ganhou força quando Carlos Drummond de Andrade, autor de clássicos da literatura brasileira como A Rosa do Povo, Rio de Janeiro, A Cor de Cada Um e Pantanal, dedicou a Machado o poema Ao Bruxo, com Amor, publicado em 1959 no livro A Vida Passada a Limpo.

 

     Logo nos primeiros versos, é feita referência à casa – número 18 – da Rua Cosme Velho, situada no bairro homônimo do Rio de Janeiro, onde morou Machado. Em seguida, passeia por algumas obras do homenageado, citando personagens e aludindo a características de personalidade destes.

 

     Para se ter uma idéia da importância que a dedicatória tem, a revista IstoÉ promoveu em 1999 uma eleição na qual convocava 30 especialistas para escolher os 30 maiores nomes do país no século, em diversas áreas. Na categoria Literatura, Machado figurou no primeiro lugar, e Drummond, no segundo.

 

     A origem do termo “ Bruxo do Cosme Velho”, porém, não é certa. A estranheza causada por um hábito de Machado pode ter feito o burburinho dos vizinhos alcançar distância que, agora, é infinita e eterna. Segundo a doutora em Literatura Brasileira, Deise Freitas, o autor gostava de queimar cartas e documentos acumulados no jardim de sua casa. Mas não métodos discretos: os papéis eram incendiados num caldeirão.

 

      Mesmo não sendo tão famosa quanto seu criador, a personagem Capitu, do livro Dom Casmurro, é o centro de um enigma insolúvel: a menina de “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” traiu Bentinho? Há escritos e escritos que discorrem tanto sobre a pergunta quanto sobre a representação que a personagem faz do feminismo numa época não tão promissora para o movimento, no final do século 19.

 

      Os livros Amor de Capitu, de Fernando Sabino, e Quem é Capitu?, de Alberto Schprejer, servem de exemplo. Em 1968, Paulo César Saraceni dirigiu um filme que leva o nome da personagem e tinha no elenco Isabella Cerqueira Campos como a protagonista cujos “olhos de ressaca” encantaram o Bentinho, interpretado por Othon Bastos. 

 

     Um dos mais respeitados críticos literários do mundo, o norte-americano Harold Bloom vê Machado como “o maior gênio da literatura brasileira do século XIX”. O analista incluiu o bruxo no Cânone Ocidental, livro de 1994 que reúne ensaios sobre os mais importantes escritores do ocidente. O motivo: as obras machadianas contém “os pré-requisitos da genialidade: exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo”.

 

    Outros que reverenciam Machado são o escritor de origem indiana Salman Rushdie, autor dos Versos Satânicos (que levou-o a ser jurado de morte pelo Irã, em 1989), e o cineasta e escritor  esporádico Woody Allen, que certa vez disse ter achado Memórias Póstumas de Brás Cubas “o livro mais esquisito e fascinante” que já teve “a sorte de ler”.

Machado de Assis não gostava de ciência

Para alguns intelectuais da época, Machado de Assis era um homem sem conhecimento científico e com pouca paixão política


Tiago Santostiagonsan@gmail.com

Capa do livro "O Alienista", no qual Machado versa sobre a loucura e a sociedade

Capa do livro "O Alienista", de Machado

“Machado de Assis, o genial escritor brasileiro, desconfiou muito dos entusiasmos com que os seus contemporâneos incensaram a ciência”. Esta é a resposta de botagirl para a pergunta “O que significava a ciência para Machado de Assis?”, feita pela Nanda, na ferramenta Yahoo! Respostas.

Machado de Assis era um severo crítico da ciência. Essa posição é pouco comentada na bibliografia sobre o autor, porém está presente em grande parte de sua obra. Seu ceticismo vem do envolvimento do escritor com a Nova Geração, grupo de intelectuais que surgiu no fim do século XIX. Segundo Richard Miskolci, doutor em sociologia pela USP, Machado compartilhou as idéias marginais do grupo, principalmente no posicionamento contra-Império. Mas ao contrário dos outros, nunca aderiu à política intensamente.

Miskolci cita em um de seus artigos que Sílvio Romero, intelectual contemporâneo de Machado, mas que ao contrário dele, perseguiu os ideais positivistas da época, afirmava que Machado de Assis “não tinha conhecimento científico nem paixão política, atributos que ele considerava essenciais no verdadeiro intelectual, ou mais claramente, no homem de ciência que via em Tobias Barreto, em si mesmo e nos outros companheiros da geração de 1870”. Ele estava mais envolvido com a dimensão estética de suas obras do que qualquer assunto que surgisse de um meio extraliterário. (leia artigo de Richard Miskolci aqui)

Para o professor português Nuno Crato, os positivistas brasileiros, que idealizaram a projeção da República no Brasil, estavam dispostos a moldar a sociedade brasileira segundo o conhecimento dito científico, como proferia a filosofia positivista de Auguste Comte. Machado foi feliz em se posicionar contra este ponto de vista, que na época era atitude revolucionária. O autor percebia que ao submeter todos os fenômenos sociais ao racionalismo extremo, que muitas vezes se mostra pretensiosamente equivocado, ampliam-se as diferenças entre as classes em nome de um progresso cego.

Não tardou para que Machado de Assis desferisse críticas à produção desta nova geração de intelectuais brasileiros de 1870. Segundo ele, ciência e poesia nunca poderiam ser feitas com as mesmas palavras. A ironia de Machado em relação à ciência está presente principalmente em O Alienista, onde relata o trabalho de um médico para sanar todos os habitantes da loucura. Machado desmistificava a pretensão da ciência em explicar a realidade em sua completude, tão em voga na época.

Com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado consegue ironizar a disposição da ciência em dar explicação para todos os males da humanidade. O plaustro Brás Cubas, criado pelo personagem principal do romance, seria um remédio para a melancolia e mal-estar dos homens. Mas a idéia não sairia do escopo, pois seu criador morreria justamente por idealizá-la demais. A obra funciona também como um excelente observatório social da época.

Para Moacyr Scliar, médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Machado foi um intérprete agudo e sensível da realidade brasileira, funcionando como um sismógrafo do Brasil na virada do século 19 para o 20. A maior contribuição de Machado à Ciência talvez tenha sido os estudos e observações acerca da sociedade brasileira no fim do Império, e que perduram pertinentes até os dias de hoje, por sinal.

O Machado Jornalista

Fazer jornalismo nunca foi a pretensão de Machado de Assis. Mesmo assim, seu trabalho como cronista teve um papel chave para moldar o jornalismo atual.

Ariane Olsenaloha_ani@yahoo.com.br

Por mais literárias que fossem, as crônicas que Machado de Assis publicou nos periódicos da sua época tiveram uma participação crucial na configuração do jornalismo atual. Seus textos, que misturavam ficção e realidade, incentivavam o leitor a refletir sobre o mundo que os cercava, e, assim, compreendê-lo melhor.

Segundo Patrícia Pina em seu artigo “Machado de Assis: jornalismo e leitura”, as crônicas machadianas não só incentivaram o pensar da realidade, mas criaram uma cultura de leitura. O público oitocentista tornou-se, gradativamente, um leitor habituado a determinado tipo de texto, habituado a pensar e refletir.

Cristiane Costa diz, em um artigo publicado no site Observatório da Imprensa, que trabalhar nos jornais brasileiros era “uma chance de profissionalização e legitimação social rara para escritores num país sem leitores”. Tomando essa informação histórica como ponto de partida, nada mais coerente que os escritores da época tivessem como objetivo transformar um público de cultura de comunicação oral em leitores assíduos.

Fragmento do jornal “Marmota Fluminense”, com texto de Machado de Assis

Fragmento do jornal “Marmota Fluminense”, com texto de Machado de Assis

Machado tomou para si, então, talvez até inconscientemente, a tarefa de formar um leitor, construir um hábito de leitura no público. Em doses homeopáticas, começou com textos onde o autor era um amigo do leitor, mera distração impressa nos jornais. Gradualmente tornou-se um hábito indispensável até para os mais despreocupados com assuntos tidos como sérios. Pôde, então, com um público fiel já conquistado, escrever sobre assuntos sérios.

O jornalismo atual não visa educar o leitor, mas foi graças a essa cultura da leitura inspirada por Machado que a predominante comunicação oral abriu espaço para um periódico escrito. Suas crônicas também suavizaram a transição da leitura de livros – literatura – para a leitura de textos jornalísticos. Eram uma escrita literária com temas atuais (na época) e reais, de relevância para a vida cotidiana da população.

Influência no Jornalismo Joinvilense

Entretanto, por mais importante que sua atuação nos periódicos oitocentistas tenha sido para o jornalismo atual, os jornalistas joinvilenses, em sua maioria, não sentem que sua prática tenha sido influenciada por Machado. O jornalista e professor do Bom Jesus/Ielusc Gleber Pieniz diz ter esperanças que suas leituras de Machado não o tenham influenciado. Afirma que a linguagem literária usada pelo escritor não é condizente com a visão que o docente tem de como o jornalismo deve ser: claro e direto.

Leonel Camasão, repórter do jornal A Notícia não reconhece em si influências machadianas: “eu sempre gostei de Machado. Li bastante no ensino médio e no primeiro ano da faculdade, mas nunca cheguei a pensar nele jornalisticamente. Se me influenciou, foi de maneira subjetiva”. O repórter do Jornal Notícias do Dia Juliano Nunes não é diferente. Admite ter lido pouco das obras de Machado e nega que sua prática jornalística tenha sido influenciada pelo autor.

A colaboração machadiana no jornalismo brasileiro rendeu diversos estudos, dentre eles o artigo do crítico Astrojildo Pereira Duarte Silva “Machado de Assis, romancista do Segundo Reinado”, e a pesquisa da catarinense Ana Luiza Andrade, ex-professora de Literatura Brasileira em Harvard, “Transportes pelo olhar de Machado de Assis”. O centenário da morte de Machado fez surgirem ainda mais trabalhos sobre esse grande escritor. Mereceu matéria e edição comemorativa do Jornal do Senado, assim como uma edição especial do Jornal da Unicamp. A Unesp também criou um site especialmente para divulgar trabalhos sobre Machado, em homenagem ao centenário.

Obras de Machado de Assis estão disponíveis na internet

Para celebrar o centenário da morte do autor, obras viram domínio público

Carolina Wanzuita – carolinawanzuita@hotmail.com

Por meio de uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC) e o Núcleo de Pesquisa em Lingüística Literatura Informática (Nupill), – da Universidade Federal de Santa Catarina – as obras de Machado de Assis estão disponíveis em meio a alguns “cliques”. Tudo para celebrar o centenário da morte do autor.

Reprodução

Reprodução

As obras contidas no site podem ser copiadas livremente, este é um dos objetivos do projeto “Machado de Assis – obras completas“. No espaço se encontram obras dos mais variados gêneros, o que facilita o percurso do estudante quando é preciso encontrar textos machadianos. “Na verdade ainda não houve nenhum (livro) que contemplasse todas as obras do autor em todos os gêneros que ele passou”, argumentam os organizadores, no site do projeto.

O processo exige etapas distintas –  há a pesquisa, digitalização, conversão de arquivos digitais e formatação – e conta com profissionais de diversos ramos.  O cuidado na edição das obras é minucioso e  contribui para o leitor obter os textos da maneira mais completa possível. O público alvo do projeto são estudantes de escolas públicas. A organização prevê a reprodução e a distribuição de 20 mil cópias destinadas às escolas municipais e estaduais de ensino médio.

Os trabalhos iniciaram no segundo semestre de 2007 e se estenderam até setembro de 2008. Confira as obras de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

O Nupill A equipe conta com 12 pesquisadores, responsáveis por três linhas de pesquisa. O ensino pela rede, que é o estudo das estratégias de ensino utilizando as tecnologias da comunicação. A linha de pesquisa sobre o processamento informático de textos, que consiste em estudo das implicações do uso de programas de estatística, de concordância e de segmentação de dados em textos literários. E o eixo que aborda a teoria do texto, o estudo de hipertexto, arte digital e sua estética.

Clube de Cinema assiste Machado

Clube de Cinema do Ielusc, de Joinville, promove debate sobre o filme Memórias Póstumas, de André Klotzel.

Felipe Silveirafelipopovfelps@gmail.com

Para comemorar o aniversário do Clube de Cinema, o curso de Comunicação Social do Bom Jesus/Ielusc parou, no dia 22 de setembro, para assistir ao longa-metragem brasileiro “Memórias Póstumas”, de André Klotzel, adaptado da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das mais importantes do maior escritor brasileiro – Machado de Assis.

O diretor tinha um grande desafio pela frente: adaptar para o cinema a obra que assinalou a transição do romantismo para o realismo em Machado. Para isso, Klotzel apostou numa linguagem ousada. Colocou a personagem Brás Cubas para falar diretamente com o espectador, assim como o texto de Machado, que fala diretamente ao leitor.

“Apesar de arriscada, a opção se mostrou das mais felizes, porque é exatamente assim que Cubas fala com o leitor do livro original: direta e francamente”, afirma o crítico de cinema Celso Sabadin.

Brás Cubas, interpretado por Reginaldo Faria, volta dos mortos para contar a história de sua vida, suas ambições e seus amores. Sônia Braga, Marcos Caruso e Otávio Muller tiveram ótimas atuações como Dona Marcela, Quincas Borba e Lôbo Neves, respectivamente.

Após a exibição do filme, a professora convidada para o debate, Deise Freitas, sentiu falta de trechos importantes do livro no filme, como a parte do escravo que Brás Cubas maltrata quando pequeno e reencontra já adulto. Deise é pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e participa do projeto Nupill, que catalogou mais de 200 obras do escritor brasileiro e as publicou na internet.

Outra crítica, do professor Silnei Soares, integrante do Clube, aponta para o fato de que a linguagem utilizada no longa é popular como uma novela, destoando do rebuscado texto original. “É uma tentativa de aproximação com o público, e isso é bom, mas ao mesmo tempo, certas sutilezas se perderam”.

André Klotzel (54) assina o roteiro e a direção. O diretor de cinema paulista é formado em Cinema pela Universidade de São Paulo (USP) e estreou seu primeiro longa – A marvada carne – em 1985.  A obra primogênita recebeu 11 prêmios no Festival de Gramado e participou do Festival de Cannes. Memórias Póstumas, o filme mais conhecido, recebeu cinco Kikitos no festival brasileiro.

Alunos estudam literatura e biografia de Machado de Assis

Centenário de morte do poeta incentivou a leitura das obras machadianas em salas de aula de Jaraguá do Sul

Daiana Constantinodaiana_constantino@hotmail.com

Michel Formighieri conheceu Machado nas aulas de literatura

Michel Formighieri conheceu Machado nas aulas de literatura

Em Jaraguá do Sul, das 18 escolas estaduais apenas a Professor João Romário Moreira realizará evento em comemoração ao centenário de morte de Machado de Assis. E das 34 instituições municipais somente a Escola de Ensino Fundamental Machado de Assis fez atividades alusivas aos cem anos de morte do poeta no dia 29. A data serviu de incentivo a leitura das obras machadianas e os professores aproveitaram para ensinar sobre o escritor em sala de aula.

O pátio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Machado de Assis lotou para a apresentação da peça “Conto de Sala de Aula de Machado de Assis”. Os alunos desfilaram caracterizados e depois declamaram poesias do escritor. Para a diretora Gisela Relindes Frankowiak, os eventos possibilitaram aos estudantes conhecer a biografia do romancista e suas obras literárias.

Os professores da Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Professor João Romário Moreira preparam atividades para o dia 15 de outubro. Segundo a diretora, Liane Lia Reinke Pinheiro, duas apresentações teatrais estão marcadas, a partir das 19h, na Sociedade Aliança, localizada no bairro Rio Cerro II.

Escola inspira alunos com mensagens de Machado de Assis

Escola inspira alunos com mensagens de Machado de Assis

Mesmo sem atividades extra-classe, os alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Abdon Batista não ficam atrás. A estudante Joana Caroline Martins, 15 anos, conta que leu Dom Casmurro. “Essa é uma obra depressiva, que fala de morte”, afirma Joana. A aluna gosta do jeito que Machado narra os fatos e os descreve. “Ele é realista e se comunica com o leitor”, aprovou a aluna.

No Instituto Educacional Jangada, o poeta é estudado durante as aulas de literatura. O aluno Michel Formighieri, 18 anos, conhece algumas obras. “No geral as produções de Machado de Assis são românticas, dramáticas, têm heróis problemáticos e a maioria é narrada em primeira pessoa. A história é focada em amores figurados, como acontece em Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas”, explica Formighieri.