Um Patrício de Joinville

Mais votado da história política recente de Santa Catarina, Patrício Destro aguarda o primeiro mandato para aprender a ser vereador.

Cláudia Morriesen – clau.morriesen@gmail.com

Patrício Carlos Destro parece estar predestinado a viver os sonhos dos outros. Ainda assim, trabalha pesado para realizar sonhos mais antigos que os 29 anos vividos pelo jornalista, e agora, vereador joinvilense.

No camarim do estúdio de jornalismo da RIC Record, ele não se despe da figura de jornalista e controla o jogo. Antes da entrevista, pergunta o motivo da matéria e se foi fácil conseguir a pauta sobre ele. Fica feliz ao saber que houve uma pequena disputa quando seu nome foi citado na divisão de pautas – ele não queria ser o tema que sobrou.

O ego talvez seja a principal ferramenta com a qual Patrício trabalha para conquistar suas metas. Para ele, ser mais um entre tantos não basta – ele precisa se destacar. Foi assim nos nove anos em que trabalha como jornalista e é assim agora, quando, na primeira candidatura ao cargo de vereador de Joinville, Patrício conquistou 8.540 votos – o maior número obtido na história política recente do estado.

Patrício nasceu em Joinville e passou os primeiros oito anos de vida morando em diferentes cidades do Brasil. O pai, Itamar Destro, trabalhava implantando filiais da empresa Tigre em outros estados, o que levou a família a morar em uma cidade diferente por ano. Quando Patrício entrou na escola, a mãe entendeu que não faria bem aos filhos ficar mudando de colégio o tempo todo. “Minha mãe sempre se preocupou muito com a nossa educação”, conta ele. Patrício não a decepcionou: sempre foi um bom aluno, não ficou em exame nem uma vez, nem mesmo na faculdade de jornalismo, ainda que não a tenha concluído.

O jornalismo é, aliás, a primeira parte da realização de um sonho que não fez parte da infância dele – era de Ivanir Destro. “Minha mãe sempre quis ser jornalista mas era de uma família pobre e não conseguiu ter uma educação que a levasse a tentar a carreira”, conta. Pressão para a escolha da profissão nunca houve, mas na hora de prestar vestibular Patrício não olhou para nenhuma outra opção. “Cheguei em casa dizendo que tinha me inscrito para jornalismo e minha mãe, ainda hoje, diz que foi um dos dias mais importantes da vida dela”.

Currículo extenso, mas jamais escrito

Patrício se orgulha de nunca ter escrito um currículo. Nem saberia fazê-lo agora e nem tem motivos para isso. Mesmo assim, ele já passou por todas as mídias de jornalismo: TV (TV Cidade, RBS e RIC Record), rádio (Floresta Negra FM), impresso (coluna diária no Notícias do Dia), internet e assessoria de imprensa (do Shopping Mueller, do Hotel Bourbon, da Cassol Center Lar e da Corretora de Câmbio Confidence).

O diploma de jornalismo nunca foi conquistado: faltou a monografia, que tratava das diferenças entre o jornalismo da RBS e do SBT. Ele até considera voltar aos bancos da faculdade para concluir o curso, iniciado na Univali e transferido para o Ielusc, mas não tem dia nem local definido para isso. Para ele, não há mais para onde seguir na atividade. “Entrei na RBS, fui repórter, editor, apresentador, chefe de redação e saí. Fui pra RIC e fiz o mesmo caminho. Para ir mais longe agora, só saindo de Joinville, mas não quero, eu adoro essa cidade”. Qual o próximo passo, então? Se candidatar a um cargo político.

A política como herança

Patrício fala muito. Se considera um contador de histórias, característica tão ideal para o jornalismo quanto para a política. Mais uma vez, a política é um sonho antigo, outro que ultrapassa em muitos anos o nascimento dele: quem sonhava em ser político era o avô de Patrício. Semi-analfabeto, nunca pôde concorrer a um cargo e tentou passar o desejo aos filhos, sem sucesso. Há cerca de dois anos, a família enxergou no neto “famoso” a possibilidade de realizar o sonho do patriarca, falecido em 2002.

Patrício não hesita ao afirmar que se candidatou a vereador apenas para realizar o sonho do avô. No início de 2007, estudou os partidos e escolheu o Democratas por se identificar com a ideologia. Na verdade, a sigla não fazia diferença já que, na opinião de Patrício, os eleitores escolhem a pessoa e não o partido. “Os dois candidatos a irem para o segundo turno em Joinville são do PT e do DEM, duas ideologias completamente diferentes. É loucura que os dois mais votados sejam de partidos tão distintos, mas é que ninguém mais dá bola para essa questão de partido”, analisa Patrício.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o candidato não tem bens a declarar. Até o fechamento desta matéria, Patrício ainda não havia terminado de contabilizar os gastos da campanha, mas afirmava que não ultrapassam nem R$ 10.000,00. A campanha foi feita de porta em porta “gastando apenas sola de sapato”. O dinheiro usado foi, em grande parte, emprestado pela família, e a assessora da campanha foi a ex-colega de faculdade Karine Kavilhuka.

A grande questão é: Como um novato pôde alcançar a façanha de ser o vereador mais votado do estado sem nem mesmo uma campanha intensiva? “Foi uma surpresa para mim também”, conta ele. “É claro que eu esperava ser eleito, mas ninguém imaginava isso”. A única explicação para Patrício é a fama conquistada nos anos de jornalista, principalmente pelo trabalho de repórter de rua. “As pessoas me viam todos os dias nos bairros, mostrando os problemas da cidade, conversando com todo mundo. Elas confiam que eu vou manter esse trabalho como vereador agora”, avalia.

Depois de ser considerado o mico das eleições municipais 2008 por ter se candidatado, Patrício superou todos os limites. É o mais jovem vereador eleito para a próxima legislação. Sua votação superou em 1.603 a soma de votos que os candidatos à prefeitura Rogério Novaes (PV) e Darci Castro (PP) obtiveram. O segundo colocado nas eleições a vereador, Adilson Mariano (PT), recebeu três mil votos a menos.

Estes recordes, no entanto, não fizeram Patrício acreditar que sua capacidade ultrapassa a dos outros vereadores. Ele irá iniciar a sessão legislativa para dar posse ao prefeito e ao vice e conduzirá os trabalhos de votação da nova mesa diretora da Câmara de Joinville, mas não pretende se candidatar a presidente da Casa: “Primeiro eu preciso aprender a ser vereador”, avisa.

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